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ARTIGO DE OPINIÃO!
Brasnorte, município do noroeste mato-grossense, 36 anos e com cerca de 17 mil habitantes, vive hoje uma crise institucional inédita: está sem prefeito com mandato garantido, sem vice com estabilidade jurídica, sem presidente da Câmara, e sem delegado ou comandante da Polícia Militar atuando de forma fixa na cidade. A frase “uma cidade sem comando” nunca pareceu tão real — ainda que, tecnicamente, os cargos estejam ocupados, todos eles estão envoltos em instabilidade, decisões judiciais e transições.
O primeiro abalo veio com a cassação dos diplomas do prefeito Edelo Marcelo Ferrari (UB), da vice-prefeita Roseli Borges de Araújo Gonçalves, e do então vice-presidente da Câmara, Gilmar Celso Gonçalves. Eles seguem no cargo até decisão colegiada do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso, mas a instabilidade já impacta diretamente a gestão.
Nesta semana, a crise política se aprofundou com a cassação do diploma do atual presidente da Câmara, Reginaldo Martins Ribeiro, conhecido como Carreirinha. Todas essas decisões foram assinadas pelo juiz eleitoral Romeu da Cunha Gomes, que analisou as denúncias apresentadas pelo Ministério Público Eleitoral.
As decisões judiciais se arrastam há quase 10 meses desde as eleições de outubro de 2024, e agora entram em nova fase com os recursos em segunda instância. A morosidade gera apreensão tanto entre os políticos envolvidos quanto na população, que assiste ao desmoronamento das lideranças locais sem uma resolução clara ou imediata.
Um dos processos mais complexos envolve o prefeito Edelo Ferrari. A ação do MP Eleitoral aponta uma série de irregularidades envolvendo indígenas da etnia Enawenê-nawê: transporte ilegal de eleitores, aliciamento para transferência de domicílio eleitoral e compra de votos com dinheiro, combustível e até frangos congelados. As denúncias foram acompanhadas de vídeos e depoimentos.
Contudo, a sentença contra Edelo e Roseli levanta dúvidas jurídicas. O juiz admite que “não ficou demonstrado, com a robustez necessária” a participação direta deles nos crimes. Mesmo assim, a chapa foi cassada por ter sido “beneficiada diretamente” pelas irregularidades — uma decisão que já gerou forte reação da defesa e abre espaço para uma batalha jurídica longa e complexa.
Mais curioso ainda: nenhum dos dois se tornou inelegível, pois o juiz entendeu que não houve dolo comprovado. Isso significa que, mesmo cassados, seguem aptos a disputar novas eleições e seguem ocupando os cargos enquanto não houver decisão colegiada.
A crise não se limita à política. A segurança pública de Brasnorte também enfrenta um vácuo de autoridade. O então delegado Eric Fantin, que antes comandava a Polícia Civil local, foi praticamente expulso da cidade após conflitos, polêmicas e pressões políticas.
Desde então, houve uma sequência de mudanças e, mais recentemente, o delegado Guilherme Renato Hernandes Polimeni Lós foi transferido para a Delegacia da Mulher de Tangará da Serra. Em seu lugar, responde de forma interina e a distância o delegado Gilcimar Carvalho dos Santos, que também atua em Barra do Bugres. A cidade, portanto, está sem um delegado em tempo integral.
A Polícia Militar também vive uma fase conturbada. O comandante da PM local foi transferido após se envolver em uma confusão com um colega de farda. Desde então, a função também está em transição.
A sensação nas ruas é de abandono e incerteza. Enquanto os processos se arrastam na Justiça Eleitoral e as nomeações nas forças de segurança são paliativas, a população sente os efeitos da instabilidade no cotidiano.
Há cobrança por parte da sociedade civil organizada e de moradores comuns por mais agilidade nas decisões judiciais. Mesmo com o volume elevado de processos, muitos consideram que demorar quase um ano para julgar casos com impacto direto na governabilidade do município é inadmissível.
Brasnorte, pelo menos por agora, não está literalmente sem autoridades, mas o que se observa é uma gestão enfraquecida, judicializada e sem liderança clara. Políticos cassados continuam no cargo, a segurança pública opera no improviso, e a confiança da população nas instituições se fragiliza a cada dia. Enquanto isso, as decisões definitivas seguem sem prazo — e a cidade permanece à deriva.
Atualmente, a única autoridade em dia, é o juiz da cidade.
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